Aprender de A a Z
Entrevista: Queimada

Lombardo – Boa tarde, Maria Emília. Vejo que tem aqui muitos restos de produtos hortícolas e ramos de árvores para o lixo. Costuma fazer queimadas para destruir os detritos?
Maria Emília – Sim. Até já devia ter feito uma. Embora o tempo hoje esteja a prometer chuva, quer que faça para ver como se faz? Está muita humidade, mas posso tentar acender o lume.
Lombardo – Sim, agradeço.
Maria Emília – Vou então buscar uns cavaquitos secos, umas pinhas, folha de jornal e os fósforos.
Lombardo – E precisa disso tudo porque o tempo está de chuva ou se estivesse seco era a mesa coisa?
Maria Emília – Era a mesma coisa, preciso sempre de atear o lume, embora em tempo seco não sejam necessárias tantas pinhas e madeiras secas.
Lombardo – Onde põe as pinhas, os troncos e o jornal?
Maria Emília – Por baixo do monte de lixo. Arranja-se aqui um buraquito e põe-se tudo por baixo. Também podia usar agulho, mas não tenho agora disso por cá.
Lombardo – O que é agulho?
Maria Emília – É a caruma dos pinheiros. Podia substituir o jornal.
Lombardo – É o jornal que ateia o fogo ao restante?
Lombardo – Como pode garantir que o lume não se propaga para o resto da propriedade ou faz uma grande labareda?
Maria Emília – Está tudo húmido, a erva do chão está molhada. O fogo não consegue sair daqui. E depois não pego fogo a um monte de lixo muito grande. Faço um pequeno monte e vou acrescentando mais lixo assim que este vai ficando queimado. Há muita humidade, hoje. Não há perigo de incêndio (risos).
Lombardo – Está a deitar mais lixo?
Maria Emília – Sim. Para queimar mais. E vou também deitar mais uns ramos secos para atear o fogo, para ver se desenvolve. Isto está muito húmido… Mas o importante é que não falte o seco por baixo, caso contrário a fogueira apaga-se..
Lombardo – Sim, mas o lixo lá vai ardendo… Nunca sai de ao pé do lume enquanto arde?
Maria Emília – Sim, posso sair que ele não alastra. Vai mas é apagar, agora que começou a chover…
Lombardo – Mas quando tempo está melhorzito também se vai embora com a fogueira acesa?
Maria Emília – Bem, depende. Se o tempo estiver como está hoje, até me vou deitar com o lixo a arder. Não há perigo nenhum, porque o chão e as ervas estão tão molhadas. O fogo não sai daqui e acaba por apagar. Se o tempo estiver mais seco, próximo do Verão, das duas uma: ou limpo o terreno em volta de fogueira de forma a retirar todas as ervas para que ele não alastre ou deito água nas bordas e o lume acaba por apagar. Mas isto é apenas necessário nos dias de muito calor. Agora a erva está muito molhada e verde. Não há perigo nenhum.
Lombardo – E esta fumarada toda não incomoda os vizinhos?
Maria Emília – Então, que remédio. Eu aqui também levo com o fumo dos outros. Ninguém se queixa. É uma coisa normal e necessária. Um dia destes aqui o vizinho queimou muitos ramos de oliveira. Faz sempre algum pó e mascarra, mas nada de anormal. As pessoas não podem guardar o lixo.
Lombardo – E agora vai usar esse gadanho para quê?
Maria Emília – Para que não arda só o lixo que está no meio da fogueira – vou puxar o que está dos lados para o centro para que possa arder também. Caso contrário as bordas ficam sem arder. Tem-se que ir chegando a lenha para o lume.
Lombardo – Não põe aquele lixo que ali está?
Maria Emília – Não, está muito verde, muito molhado. Não vai arder.
Lombardo – É porque a lenha está molhada e húmida que a fogueira deita tanto fumo?
Maria Emília – Sim, se estivesse seca, não fazia tanta fumarada.
Lombardo – Depois a cinza que fica no terreno até é boa para o cultivo, certo?
Maria Emília – Sim, ainda há dias semeei ervilhas e favas numa parte do terreno que ainda tinha bastante cinza. Foi na clareira de uma queimada.
Lombardo – Muito obrigado, Maria Emília.




















