Aprender de A a Z
Entrevista: Alho

Maria Emília – Oh Senhor Lombardo!!! Sr. Lombardo!!!! Bom dia. Pode vir aqui acima? Vou semear alhos.
Lombardo – Bom dia, Maria Emília. Hoje vai semear alhos? Com este frio?
Maria Emília – Pois, tem que ser. Os alhos semeiam-se por esta altura. Nunca ouviu dizer “Pelo Natal bico de pardal”?
Lombardo – Não… o que significa?
Maria Emília – Que pela altura do Natal os alhos já se querem germinados, já devem ter o tamanho do bico de um pardal. E depois, lá para meios de Janeiro, já se vêem bem.
Lombardo – E o que precisamos para semear alhos?
Maria Emília – É o costume. Preciso de uma enxada para limpar o terreno das ervas e depois faço um pequeno rego. Quer ver?
Lombardo – Sim.
Lombardo – Cada dente de alho dá uma cabeça?
Maria Emília – Sim, é isso. Sabe, nesta terra os alhos semeiam-se sempre no minguante, assim como o feijão verde, as favas….. Mas também há quem não faça caso disso e as coisas crescem na mesma. Nunca ouviu dizer “Cada terra com o seu uso, cada roca com o seu fuso”?
Lombardo – Não. Mais um provérbio novo para acrescentar à minha lista. Reparo agora que está a deitar as ervas que retirou da terra para dentro do rego onde vai semear os alhos?
Maria Emília – Sim. Por cá costuma-se fazer assim, porque as ervas acabam por apodrecer. Quer dizer, há umas que não morrem, voltam a romper a terra, mas a maioria apodrece.
Lombardo – Não aduba a plantação?
Maria Emília – Devia fazê-lo, mas neste momento não tenho cá adubo.
Lombardo – Deita os dentes de alho com casca na terra?
Maria Emília – Sim, sempre com casca e com a parte de cima, a mais fina, virada para cima. Espeta-se sempre o dente de alho na terra desta forma. Caso contrário, ele não germina, porque o grelito cresce a partir deste bico. Sempre para cima.
Lombardo – Não vai enterrar mais os dentes de alho? Ficam só meio enterrados?
Maria Emília – Bem, podiam ficar assim que pegavam na mesma, grelam na mesma, mas vou deitar um bocadito de terra por cima para os proteger da geada.
Lombardo – Se não tivesse muito frio não deitava terra por cima?
Maria Emília – Não era preciso. Agora com a terra fresca vão começar a grelar rapidamente.
Lombardo – Quanto tempo demoram a grelar?
Maria Emília – Ao fim de 15 dias, mais ou menos, já começa a aparecer qualquer coisa.
Lombardo – E rega?
Maria Emília – Não. Não gostam de ser regados. Só bebem a água que cai do céu.
Lombardo – Quando estão prontos para serem apanhados?
Maria Emília – Pela altura do São João. Os antigos diziam que o alho não deve dormir na terra na noite de São João, que devia ser arrancado antes desta data. E em Maio é bom tirar-se a terra em volta do alho para a cabeça crescer. Esgravata-se em volta com um pauzito para a cabeça ficar mais de fora, para engrossar.
Lombardo – A rama do alho é muito parecida com a da cebola…
Maria Emília – Olhe que até não. Não vê que a folha da cebola é muito mais larga que a do alho? São fáceis de distinguir.
Lombardo – Mesmo com o tempo quente nunca rega os alhos?
Maria Emília – Não, nunca. Os alhos não querem água. Já os antigos o diziam que a humidade chama o míldio. Água só a do céu.
Lombardo – Na altura da colheita a rama seca?
Maria Emília – Sim, começa a ficar amarela e em meados de Junho tiro-os da terra.
Lombardo – Quando os tira da terra tem algum procedimento especial a adoptar?
Maria Emília – Tenho de os por a secar ao sol e entrança-los ou fazer um molho deles. É mais ou menos como as cebolas. Quando os arranco ficam a secar até a rama amarelecer por completo.
Lombardo – Pragas e doenças. Atacam muito os alhos?
Maria Emília – Por aqui é mais o míldio.
Lombardo – Obrigado por em ter chamado neste dia chuvoso. É sempre muito útil, e como não tinha nada para fazer…












