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Entrevista: Vindima

 

 

 

 
 
Oleiros1060

 

António Martins

 

Colaborador Habitual do Ruralidades

 

 

Lombardo – Bom dia, Sr. Martins. Está na hora da vindima?

 

 

 

António Martins – Agora sim, deixe cá ver, pois… já passa das 10H00.

 

 

 

Lombardo – Porque às 10H00?

 

 

 

António Martins – Estivemos à espera que o sol secasse as uvas da orvalhada da noite. Toda a vindima é feita em Setembro e por aqui, em finais de Agosto, já começa a cair alguma humidade.

 

 

 

Lombardo – Então a vindima não gosta de água. Hoje está bom tempo, mas se começasse a chover. O que fazia?

 

 

 

António Martins – Nada, continuávamos o trabalho. O pior era a graduação do vinho. Ficava por certo mais fraca.

 

 

 

Lombardo – Já encheram alguns cestos…

 

 

 

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António Martins – Olhe, cada cesto leva cerca de 20kg de uvas. Por norma, costumamos fazer a vindima em cerca de 2 horas. Somos 7 pessoas e no final devemos ter cerca de 20 cestos cheios de cachos de uva.

 

 

 

Lombardo – Têm alguma técnica para o corte dos cachos?

 

 

 

António Martins – Não. Os cachos cortam-se com uma tesoura de poda pequena ou com um canivete – não há nenhuma técnica especial. Basta cortar por cima de forma a que todos os bagos de uva venham agarrados ao cacho.

 

 

 

 

 

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Lombardo – Tem aqui várias castas. Separa-as para fazer o vinho?

 

 

 

António Martins – Não, nada disso. As castas vão todas juntas – não se separam por cestos. O vinho é feito com todas elas misturadas. Sabe, há castas específicas para fazer vinho. Nesta vinha tenho o aragonez,

 

 

 

António Martins – arinto,

 

 

 

António Martins – castelão periquita,

 

 

 

António Martins – fernão pires,

 

 

 

António Martins – malvasia,

 

 

 

António Martins – malvasia fina,

 

 

 

António Martins – tinta de val moz,

 

 

 

António Martins – touriga nacional,

 

 

 

António Martins – e a bical.

 

 

 

Lombardo – Não pode fazer vinho apenas com uma casta?

 

 

 

António Martins – Só conheço uma em que isso é possível – é com a calum. A calum é autóctone e não é boa para misturar. É uma casta que se faz em exclusividade. Sozinha faz um bom vinho, desde que as uvas estejam muito maduras. O vinho parece um refresco.

 

 

 

Lombardo – Mas todas as castas dão para fazer vinho?

António Martins – Não, nem todas. As de uva de mesa como a moscatel

 

 

 

António Martins – e a dona maria não dão para vinho.

Lombardo – Porquê?

António Martins – Não se utilizam porque não têm na sua composição açúcar suficiente, nem tinta para darem cor. As uvas devem ter 22 a 26º de açúcar para poderem servir para fazer vinho. E estas uvas não têm essa graduação.

Lombardo – E porque é que junta todas as estas castas que por aqui tem?

 

 

 

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António Martins – Tem de ser um conjunto de castas porque umas dão cor, outras sabor, outras açúcar (grau). Todas estas castas não estão aqui por acaso. Foram feitos muitos testes. E ainda aqui andou uma Eng. Agrónoma a fazer um estudo sobre o tipo de solo e de clima. Sabe, antes de um grande incêndio que aqui deflagrou em 2003, esta zona era tradicionalmente de Oliveiras. Não havia vinha. Depois do incêndio, e na recuperação das culturas e plantações, começamos a fazer testes, vimos o que se adaptava aqui à região de Oleiros e ficámos a saber quais as castas mais adaptáveis, especialmente nos vales virados a sudoeste.

 

 

 

Lombardo – Sabe-me dizer quais as características de cada uma das castas que aqui tem?

António Martins – Bem, posso dizer que as castas de uvas brancas são sempre mais doces e que por isso dão mais graduação ao vinho, têm mais açúcar. É o caso do aragonez, arinto, malvazia e malvazia fina, touriga, bical. A malvazia fina e a bical são as mais doces. A castelão piriquita, estando muito madura dá graduação e cor. Quem também dá muita cor é a tinta val de moz. Tem pouca graduação, mas dá muita cor. É muito frutada. A fernão pires deve estar muito madura e também dá graduação. E a touriga… bem a touriga é quase a essência de qualquer vinho – é muito frutada e garante um vinho mais saboroso.

 

 

 

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Lombardo – E que tipo de vinho vai sair daqui?

António Martins – Isto faz um vinho pouco incorpado. Se as uvas estiverem naturalmente maduras faz um vinho entre os 13 e os 14.º. Este ano sou capaz de tirar daqui uns 400 litros de vinho.

Lombardo – Refere-se muitas vezes ao açúcar da uva. Se as uvas não foram doces o que acontece ao vinho?

António Martins – Ora, se não forem doces, se as castas não tiverem muito açúcar, o risco do vinho não cozer é grande. Pode azedar. É o açúcar da uva que vai fazer fermentar o vinho. Se passada uma semana não tiver começado a cozer, provavelmente vai-se estragar.

 

 

 

Lombardo – Depois da vindima que tarefas o aguardam na vinha?

António Martins – Primeiro a vinha fica em repouso. Caem as folhas no Outono e depois em Fevereiro, podo-a em verde, ou seja, quando os troncos já estão mais fortes. A poda que se faz é de tipo cornecho. A partir do segundo ano de vida, é bom que as vinhas estejam habituadas a um determinado tipo de corte ou poda. Neste tipo de poda, a de cornecho, nunca deixo as varas com mais de 10 a 15 cm de comprimento.

 

 

 

 

 

Lombardo – E porque faz a poda em Fevereiro?

António Martins – Porque as pernadas já apanharam o frio do Inverno e ficaram mais compactas, mais rijas. Mas também há quem as pode a seguir à vindima. E há quem pode e deixe as varas compridas – mas eu prefiro ter menos uvas. Repare: a raiz de uma planta é sempre a mesma. Quanto maior for a planta de mais alimento vai precisar. Ora, se na poda deixar as varas mais curtas, a planta fica menor e por isso terá mais alimento para produzir melhores e maiores cachos. Quanto maior foram as varas, pior, porque as uvas ficam mais pequenas e dão menos açúcar.

Lombardo – E faz algum tratamento?

 

 

 

António Martins – Ora, logo após a poda faço uma cura para desinfecção à base de sulfato de cobre. E depois, de acordo com o desenvolvimento da videira, suas pragas e doenças, vai-se tratado com pesticidas, fungicidas… Os pesticidas costumam deitar-se na altura do aparecimento das primeiras flores que é quando as aranhas costumam atacar os rebentos.

Lombardo – E depois começa tudo de novo….

António Martins – Sim, é cuidar das plantas, fazer a desfolha antes do verão….

Lombardo – O que é a desfolha?

António Martins – Temos de garantir que as uvas apanham sol para ficaram doces e amadurecerem. Para isso temos de arrancar as folhas que as protegem do sol.

 

 

 

Lombardo – Resta-me desejar boa sorte e que a colheita que proporcione um bom vinho!

 

 

 

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António Martins – Obrigado, Sr. Lombardo. Depois pelo Natal venha cá à primeira prova.

 

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