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Entrevista: Figueira

 

 

 

 
 
maria emilia g

 

Maria Emília Monteiro

 

Colaboradora Habitual do Ruralidades

 

 

Maria Emília – A olhar para a minha figueira, Sr. Lombardo!

 

 

 

Lombardo – Olá, Maria Emília. Está bonita, não está?

 

 

 

Maria Emília – Sim, mas podia ter dado mais e melhor fruto. Este ano de 2011 não está grande coisa para o campo… Os figos têm apodrecido ainda na árvore… fora os que caem para o chão.

 

 

 

 

 

Lombardo – O bicho também deve ajudar.

Maria Emília – Sim, é verdade. A árvore não é tratada. Há insectos, lagartas (também chamadas de mosca-da-figueira), pássaros e até morcegos. Todos comem um pouco. E já não nem falo dos animais que se alimentam do que encontram no chão. Mas esses ainda vá…

 

 

 

Lombardo – Maria Emília, juro que não comi nada. Mas olhe que apesar de tudo têm um aspecto delicioso.

 

 

 

Maria Emília – Ah pois então não deveriam de ter? Esta dá figos pingo de mel. São os melhores. E já pensou bem que deve ser das árvores mais antigas do mundo?

Lombardo – Como assim?

Maria Emília – Então, como é que se cobriam Adão e Eva? Não era com folhas de figueira?

 

 

 

Lombardo – É mesmo… já existe há milhares de anos. Será de fácil reprodução?

Maria Emília – Eu não percebo muito bem, mas o que me disseram é que a reprodução se faz muito graças às vespas.

 

 

 

Lombardo – Vespas? Tem a certeza? Credo!

Maria Emília – Sim, umas vespas pequeninas que depositam os seus ovos nas flores das figueiras.

Lombardo – Nunca vi as flores de uma figueira….

Maria Emília – Ver, já deve ter visto, mas são pequenas e estão dentro daquilo a que geralmente chamamos de figo.

 

 

 

Lombardo – Geralmente?

Maria Emília – O figo é conhecido por ser um falso fruto, porque na verdade o fruto mais não é aquilo que por norma chamamos de sementes. Ou seja, o figo não é um fruto, mas uma infrutescência.

 

 

 

Lombardo – Não percebo.

Maria Emília – É difícil explicar-lhe. Bom: como lhe disse as flores estão dentro daquilo que chamamos figo, ou seja estão protegidas e escondidas por esta capa (a pele do figo) que se chama sicónio. Por isso é que não vê a figueira florida. Ora, dentro do figo (se assim preferir chamar-lhe) estão flores dos dois géneros: masculinas e femininas. Ora, como sabe, são as flores que dão origem ao fruto. É ou não e assim?

Lombardo – Pois, costuma ser.

 

 

 

Maria Emília – O fruto na realidade é o aquénio que mais não é do que aquilo que vulgarmente pensamos serem as sementes. Como as flores estão protegidas pelas capas dos figos, pela pele do figo, cria-se um ambiente propício ao desenvolvimento das larvas das vespas, que se alimentam das substâncias que se encontram na pele do figo.

 

 

 

 

 

Lombardo – E depois?

Maria Emília – Mas já está a compreender?

 

 

 

Lombardo – Sim, continue.

Maria Emília – Bem, os ovos das vespas são depositados nas flores femininas da figueira na altura em que as flores já estão maduras. Mais tarde, quando as larvas crescem e os machos fecundam as fêmeas (antes larvas) estas abandonam as flores femininas. Ao saírem das flores ficam envoltas em pólen, exactamente na altura em que as flores masculinas já estão maduras. Como o ciclo de repete, ou seja, como as novas fêmeas têm de procurar novas flores femininas maduras para depósito dos seus ovos e estão cobertas de pólen, ao entrarem nas ditas flores cobertas de pólen dá-se a fecundação. E é daqui que nascem as sementes necessárias à propagação da figueira.

 

 

 

Lombardo – Então e o que acontece às vespas machos?

Maria Emília – Por lá ficam, morrem – nem sequer chegam a sair dos figos.

Lombardo – Chiça! Mas enquanto vivem comem estes figos deliciosos…

Maria Emília – Sim, são muito docinhos. E deles fazem-se compotas, doces e até licores.

 

 

 

Lombardo – E chá?

Maria Emília – Chá só das folhas secas. Dizem que é um bom laxante e que faz bem à tosse. Nunca bebi.

Lombardo – Mas olhe que se ainda quer alguns figos é melhor apressar-se na apanha.

Maria Emília – Quer apanhar alguns?

 

 

 

Lombardo – Se não se importar....

Maria Emília – Não quer que eu vá buscar umas luvas velhas que ali tenho para os apanhar? O figo deita um líquido branco que é irritante para a pele.

 

 

 

Lombardo – Que líquido é esse?

Maria Emília – Chamam-lhe leite do figo ou látex. Pode ser usado para coalhar leite.

 

 

 

Lombardo – Deixe lá as luvas, Maria Emília. Sou vou colher meia-dúzia deles.

 

 

 

Maria Emília – Mas olhe que não vale a pena apanhar muitos – só resistem cerca de 3 a 4 dias no frigorífico. É por isso que os seco. Estragam-se muito depressa. Depois se quiser mais vale voltar a cá vir, porque faço ouvidos moucos ao que se costuma dizer: “Em tempo de figos não há amigos”.

 

 

 

Lombardo – E como os seca?

Maria Emília – Ao sol para que possam perder cerca de 80% da sua água. Ficam desidratados e secam. Mas este ano com esta chuva não há tempo que os seque.

Lombardo – E os figos secos duram muito tempo?

 

 

 

Maria Emília – Sim bastante. E são bons.

Lombardo – Setembro é o mês de ir aos figos, não é?

 

 

 

Maria Emília – Sim, por aqui a colheita faz-se depois do verão – Setembro, Outubro. Mas olhe que não se esqueça que há lampos nos finais da primavera.

 

 

 

Lombardo – Lampos?

Maria Emília – Sim, é o primeiro fruto que nasce da figueira. Parece um figo, mas é menos doce.

Lombardo – Oh, Maria Emília. Estou saciado. Mas olhe que volto cá.

Maria Emília – Pois venha. Cá estarei para o receber. Mas não venha na quinta à tarde – tenho de ir à Frazoeira com a Senhora Quitas.

Lombardo – Combinado. Até breve!

 

 

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