Aprender de A a Z
Entrevista: Alecrim

Maria Emília – Boa tarde, Sr. Lombardo. Ainda bem que o encontro. Estive a cuidar o meu alecrim e lembrei-me de si. Quer ir vê-lo?
Lombardo – Sim, claro. Tenho todo o gosto nisso, já sabe que sim. Sou burro, mas nem tanto!
Maria Emília – Então venha comigo. Atenção aos degraus!
Lombardo – Chiça. Quatro patas e chego ao último sempre cansado!
Maria Emília – Ora cá está ele. Acabei de lhe cortar uns ramitos para perfumar os roupeiros da casa e afastar as traças.
Lombardo – Cheira muito bem.
Maria Emília – Ah, pois cheira. É muito utilizado para temperar azeitonas e há quem deite no comer, nas carnes. É uma erva aromática. Dizem que se grelhar peixe é bom por sempre um pouco de alecrim. O fumo aromatiza o peixe, mas eu nunca o utilizei na comida. Só nas azeitonas.
Lombardo – Já está aqui uma pequena flor.
Maria Emília – Sim, mas só lá para Abril é que fica completamente florido. Agora já vai a deitar alguns botões, mas ainda muito pequenos.
Lombardo – É um grande arbusto
Maria Emília – De vez enquanto tem de ser podado. Tem um tronco forte. E já estava a deitar uns ramos por cima do pessegueiro. Já aqui está há alguns anos.
Lombardo – E quando é que o costuma podar?
Maria Emília – Lá para a Primavera, antes da época de floração.
Lombardo – Por raiz não dá, é só uma e está muito enterrada. Mas pode tentar pegar por estaca. Um dia destes consegui pegar alfazema por estaca. O alecrim é a mesma coisa.
Lombardo – E como é que se processa a estacaria?
Maria Emília – É fácil. Corta uns ramitos lenhosos, assim, está a ver? A partir do tronco principal. Depois põe-nos directamente na terra, com uma boa parte enterrada, assim por aqui.
Lombardo – Parece fácil.
Maria Emília – Quando é pela Páscoa a flor abre. As pessoas costumam fazer pequenos raminhos no Domingo de Ramos. Já é uma tradição muito antiga. Durante a missa o padre benze os ramos. Dizem que é bom levarmos para casa os raminhos benzidos. Sempre que há trovoadas devemos pô-los a arder no lume para ficarmos mais protegidos. Afasta a trovoada. Enfim, são coisas antigas. Também há quem leve ramos de oliveira.
Lombardo – E a Maria Emília também leva o seu raminho?
Maria Emília – Sim, já tenho levado
Lombardo – Mas diga-me lá como é que faz a estacaria?
Maria Emília – Se pregar estes dois ramitos na terra, até aqui assim, mais ou menos, eles são capazes de pegar. É uma questão de esperar para ver. É conforme as alturas, mas estamos em Janeiro e esta é uma boa época para a propagação. Mas, se não pegar, leva mais uns ramitos para tentar mas tarde.
Lombardo – Porque é que os ramos têm de ficar tão enterrados?
Maria Emília – Porque senão não pegam. É assim que se faz.
Lombardo – Vamos então arranjar um vaso?
Maria Emília – Sim. “Aaaalecrim, alecrim aos molhos por causa de ti choram os meus olhos...” (Risos). Vamos por uns pedaços de tijolo por baixo, depois deitamos um pouco de terra até meio, pomos os ramitos bastante enterrados e deita-se mais terra por cima. Calca-se bem, deitam-se umas folhitas para fazer de esterco… Depois, se algum dos ramos pegar tem que mudar para outro vaso. Para se desenvolver. Vou só deitar um pouco de carrasca por cima, casca de pinheiro..
Lombardo – E devo regar?
Maria Emília – Isto não é coisa de regar. O que tenho ali nunca é regado. Mas agora para criar raiz e pegar pode deitar um pouco de água.
Lombardo – E pode apanhar sol directo?
Maria Emília – Sim, pode. Sol, sombra. É resistente. Gosta de terras de sorraipa e dá-se bem com sol directo..
Lombardo – Que terras são essas?
Maria Emília – Terras de serra.
Lombardo – Mas aqui também se dá e não estamos na serra...
Maria Emília – Sim, mas a terra onde ele está é de sorraipa. Aquela terra é junto à parede. Tem pedra.
Lombardo – Espero que pegue.
Maria Emília – Olhe, se não pegar não se perde muito, mas prometo-lhe, Sr. Lombardo, que se encontrar por aí algum com raiz lho trago.
Lombardo – Sério? Obrigado Maria Emília, muito obrigado.
Nota Ruralidades – O alecrim foi plantado em vaso por estacaria no início de Janeiro. Às portas de Fevereiro apresenta-se saudável conforme fotografia publicada:
NB – O Ruralidades não se responsabiliza pelo uso indevido de ervas e plantas. Aconselhe-se com um especialista

