Entrevistas Fruteiras
As castas e o vinho
António Martins
Colaborador Habitual do Ruralidades
Ruralidades – Senhor Martins, estamos na sua vinha com 650 pés plantados. Que quantidade de vinho consegue aqui produzir?
António Martins – 25 almudes.
Ruralidades – E 25 almudes são….?ira brava, desconhecemos a sua qualidade, um cavalo, como lhe chamou e é precisamente aqui que vai enxertar um garfo, é isso?
António Martins – Cada almude são 20 litros.
Ruralidades – Que castas aqui tem?
António Martins - Tenho o Toriga, o Aragonês e o Castelão. Além disso temos o Calude, que não está propriamente na vinha, mas nas margens dela. É uma qualidade própria desta região, uma uva que produz um vinho branco que tem à volta de uns 10º de graduação. Nunca vai além disso.
Ruralidades – Conhece as castas só de olhar para elas?
António Martins – Elas são muito parecidas. Só quem as conhece muito bem é que as consegue distinguir. Tenho até uns marcadores para saber quais são as castas, a qualidade, ou mesmo para utilizar nalguns enxertos. É uma etiqueta plástica que me relembra a qualidade da casta ou que enxerto foi feito.
Ruralidades – A vinha este ano portou-se bem?
António Martins – Sim, está a evoluir bem, está a madurar, temos tido bastante sol. É capaz de ser um bom ano para o vinho.
Ruralidades – Cura a vinha?
António Martins – Sim, esta vinha já tem quatro curas. A primeira foi feita logo de início em Maio, Junho. A doença principal que a ataca é o míldio, ataca em grandes quantidades e começa a aparecer nas noites muito frias. Depois vem o oídio, que também atacou um bocadito este ano. É ao oídio que vulgarmente chamamos farinha. Para o atacar temos que utilizar um fungicida. Depois, também ainda muito cedo, tivemos que utilizar um insecticida, para um problema relacionado com aranhas que rapidamente desapareceram. Mas basicamente este ano tivemos apenas problemas com o míldio e o oídio.
Ruralidades – Qual é a diferença entre o míldio e o oídio?
António Martins – Ambos são fungos, mas o míldio deixa a folha amarela. Tenho uma pequena vinha perto daqui, junto a umas roseiras que avisam logo quando é que a vinha começa a ficar com o míldio – assim que as roseiras começam a ficar com as folhas amarelas, já sei que a vinha vai ser atacada de seguida. No que se refere ao oídio, a uva começa a ficar com uma parte branca a envolver o bago e essa parte tem que ser curada imediatamente.
Ruralidades – Mas a prevenção também é possível, ou não?
António Martins – Sim, claro, temos produtos preventivos e ainda bem que os temos. Produtos contra o míldio, o oídio… o pior são as noites húmidas, as orvalhadas que dão origem a estes fungos. Mas nesta altura do ano, em Agosto, as noites são quentes. Já não há problema.
Ruralidades – E como é que está de rega?
António Martins – Tenho rega gota-a-gota que apenas é utilizada inicialmente até à floração. Até esta altura a vinha precisa de humidade – depois disso deixo de a regar.
Ruralidades – A graduação do vinho que produz com estas castas é muito elevada?
António Martins – Anda à volta dos 14.º.
Ruralidades – Ena…. Não são precisas muitas garrafas para deixar uma família feliz…. (risos)
António Martins – Olhe, antes de ter aqui esta vinha, tinha um olival. Cortei as oliveiras e enterrei a rama em valas. Andou aqui uma máquina durante uma semana. A terra que agora pisa está bem estrumada. Depois pus as videiras após ter mandado analisar o terreno e o clima, no sentido de saber quais as melhores castas para aqui plantar. E resultou.
Ruralidades – O que tenho que fazer para também ter uma vinha?
António Martins – Em primeiro lugar, tem que ter um terreno virado a sul abrigado dos ventos frios. Convém mandar analisar o terreno e tratar das suas eventuais deficiências com os adubos adequados. De seguida, tem que abrir valas, deitar os fertilizantes (é o caso da ramagem verde ou outros), tapá-los com alguma terra e plantar as videiras com intervalos de 1,5 metros, distribuindo as suas raízes de forma a não ficarem acamadas. As castas devem ser escolhidas de acordo com as características de cada terreno e do clima próprio de cada região.
Ruralidades – E de seguida? São colocados tutores?
António Martins – Após a plantação podem colocar-se postes de madeiras ou de cimento com uma distância de cerca de 3 metros em eles. Os postes são utilizados para que se estiquem arames, cerca de 4 ou 5, com uma distância em altura entre eles de 0,35 cm.
Ruralidades – Consegue fazer vinho só de uma casta?
António Martins – Não, não é possível. Aliás, até é mas não adquire a qualidade de um vinho feito com uma variedade de 3 ou 4 castas.
Ruralidades – E nunca pensou em fazer vinho de marca?
António Martins – Não, mas se for à vila de Oleiros e perguntar pelo vinho de Sto. António todos sabem que é o meu (risos).
Ruralidades – Vende vinho?
António Martins – Não, nunca vendi nada. É tudo dado.
Ruralidades – Mas a manutenção da vinha e a produção do vinho têm os seus custos….
António Martins – Sim, principalmente as curas, porque a água não a pago. Tenho numa mina, está a ver aquele tubo? Está ligado àquele depósito que é onde se concentra a água. Está sempre cheio. E tenho ainda aqui outro depósito. Preciso de dois para regar toda esta área que tem vinha e não só. Também há por ai algumas fruteiras...
Ruralidades – Aconselhava-me a ter uma vinha?
António Martins – Sim, certamente que sim. Então em Oleiros, o meu conselho é: deixem tudo o resto porque esta zona é muito fria no inverno. Dá cabo de tudo se não tivermos cuidados redobrados. A vinha é para ficar. Para fazermos uma vinha devemos sempre virá-la para sul, para ter sempre sol, que é o que amadurece a uva, a torna mais doce e o vinho fica com uma graduação muitíssimo boa. É o sol que faz a maduração da uva.
Ruralidades – E quando costuma ser a vindima?
António Martins – Em Setembro, princípios de Outubro. E temos sempre que utilizar os instrumentos adequados, tesouras de poda em bom estado, bem afiadas. São tesouras um pouco mais pequenas das utilizadas na jardinagem normal.
Ruralidades – E depois? Qual o processo seguinte?
António Martins – Então, depois acaba por cair a folha toda. Fica só a haste e em Abril faz-se novamente a poda. Recomeça todo o processo – as curas, a rega, a floração (a vinha dá uma flor branca, muito pequena)…. Temos sempre que acompanhar a vinha, até mesmo antes dela rebentar, porque já nessa altura leva uma cura por causa da aranha. Após a poda eliminam-se logo os ácaros, é a primeira cura e a principal. Depois vai-se curando consoante as maleitas de que vai sofrendo, mas felizmente esta vinha não me tem dado muito trabalho.
Ruralidades – Quais as castas que dão uvas bancas e as que dão uvas pretas?
António Martins – O aragonês é preto, o castelão também é preto, a toriga já é branca e o olho de cobra é mais amarelo (tenho aqui muito pouco disto, são uvas muito doces, a mosca e a abelha atacam muito. Está a ver que o cacho ainda está verde e já está meio comido pelos pássaros? (risos) É muito doce. Tive cortar a maior parte desta qualidade porque não compensava.
Ruralidades – Vamos passar para a parte da produção do vinho. Após a vindima, qual o processo utilizado para que o vinho acabe dentro da garrafa?
António Martins – Bem, chamo algumas pessoas para me ajudarem, mas antigamente era mais difícil, a uva tinha que ser esmagada ao pé. Agora tenho esta máquina eléctrica, deito aqui para dentro as uvas, é só ligar o motor.
Ruralidades – E é o cacho todo que deita na máquina ou só são os bagos?
António Martins – É tudo. A própria máquina separa o cardaço do bago. Esmaga a uva e faz a separação devida. O cardaço sai todo para fora.
Ruralidades – E as grainhas?
António Martins – As grainhas ficam, embora algumas também sejam separadas pela máquina. De seguida deitamos todo o produto, o vinho, nestes vasos grandes, que levam 500 litros cada.
António Martins – Pomos a máquina por cima dos vasos, o vinho vai caindo e enchendo os vasilhames. A parte de baixo da máquina é aberta. Neste momento esses vasos ou vasilhames que se chamam dornas estão tapadas com um tampo de madeira que é retirado quando a máquina se põe em cima delas. Depois, o produto fica cerca de 4 ou 5 dias dentro da dorna. Passado esse tempo, tenho outro motor mais pequeno que utilizo para sugar todo o sumo que está dentro das vasilhas e que vai directamente para as pipas.
Ruralidades – E depois quanto tempo fica dentro das pipas?
António Martins – Bem, depois o vinho tem que ser mexido com um pau próprio para não azedar. É um pau que se põe dentro das pipas para que o bagulho seja mexido e se misture com o sumo (o bagulho é o que fica à superfície depois de esmagados os bagos).
Ruralidades – Que pau especial é esse?
António Martins – Geralmente é um pau de madeira e quadrangular, comprido para que chegue ao fundo da pipa.
Ruralidades – E tem que ser de madeira?
António Martins – Convém, mas pode ser de outro material.
Ruralidades – E depois?
António Martins – Depois, quando o bagulho já estiver no fundo temos que aguardar que o vinho aclare. Geralmente, só pelo Natal é que está em condições de se beber. Antes disso é difícil. Depende também da produção de cada ano – se for um ano em que fez muito frio ou gelo, o vinho aclara mais rapidamente.
Ruralidades – O seu vinho é sempre da mesma qualidade, certo?
António Martins – Não. Faço de dois tipos – o da vinha propriamente dita é um vinho com maior graduação, chega as 14.º e às vezes até os ultrapassa; ao passo que a vinha que tenho no quintal dá um vinho de menor graduação, cerca de 10º. Este último não é vinho para guardar.
Ruralidades – Bem, então depois do vinho ter aclarado o que e que lhe faz? Engarrafa-o?
António Martins – Até há pouco tempo, engarrafava-o, mas quer as garrafas, quer as rolhas estão muito caras (as rolhas rondam os 14 a 20 cêntimos/cada) e então optei por estes depósitos mais pequenos de 10 e 20 litros, que são muito bons.
António Martins – Têm uma torneira e o vinho fica guardado em vácuo. Não se estraga tanto. As rolhas das garrafas muitas vezes não estavam em condições, não são feitas de boa cortiça, são muito porosas e a maior parte das pessoas que aqui na zona utilizavam o método do engarrafamento mudaram para estes vasilhames, que também se revelam ser mais práticos.
Ruralidades – Mas há aqui garrafas que também foram lacradas, não têm só a rolha….
António Martins – Algumas sim, era mais outra invenção, o lacre. Havia uma máquina para isso. Mas também já não utilizamos esse sistema. Os depósitos que agora usamos são mais baratos, mais práticos, mais fáceis de acomodar e ocupam menos espaço.
Ruralidades – Quantas garrafas aqui tem?
António Martins – Nas garrafeiras tenho 1.500 garrafas. Se não tivesse optado pelos depósitos imagine o que isto seria!
Ruralidades – E que instrumentos são esses que ai estão no chão?
António Martins – Era os que usávamos para engarrafar. Um é mais antigo, o verde, e o outro é mais moderno, o amarelo.
António Martins – Têm uma falange que aperta a rolha para que esta entre na garrafa. Mas atenção, a rolha tem sempre que ser primeiro molhada com vinho para amolecer e facilitar o engarrafamento.
Ruralidades – E este instrumento – também era para enrolhar?
António Martins – Sim, mas já é mais antigo e propício a partir garrafas (risos).
Ruralidades – E estes vasilhames cinzentos, de inox, para que servem?
António Martins – São depósitos de outra qualidade. Estou a utilizá-los para deitar o vinho logo depois de feito. Também têm uma pequena torneira. Mas foram praticamente substituídos por aqueles vasilhames mais pequenos, embora aquele vinho que se bebe logo de início seja deitado nestes inoxes. O outro, nomeadamente o que faço da vinha, é que vai logo para aqueles vasilhames mais pequenos. É conforme. Mas de uma maneira geral, o vinho quando tem graduação e é bom, ou vai para garrafas ou vai para aqueles depósitos. Mas os inoxes também são bons. Tenho aqui vinho já com 3 anos.
Ruralidades – Quanto tempo dura o seu vinho?
António Martins – Há vinho que azeda, que perde as qualidades. Por exemplo, o nosso vinho como não é de muita graduação não serve para guardar. Dura cerca de 5 anos.
Ruralidades – Mas tem garrafas que parecem aqui estar há bastante tempo…
António Martins – Estas aqui devem ter uns 5 anos… Mas olhe, se as abrisse a maior parte seria para deitar fora. Encontraria umas garrafas melhores, outras piores, mas verifica-se até pela própria rolha que efectivamente não é de boa qualidade, é muito porosa, há vinho que inclusivamente já saiu por lá. Só por isso este vinho nunca pode ser muito bom.
Ruralidades – Mas as que estão lacradas permitem que o vinho dure mais tempo?
António Martins – Sim, isso sim. É completamente diferente. A lacra dá qualidade, mas encarece. Não vale a pena. Para que eu encontre agora uma garrafa boa, vou ter que abrir umas cinco ou seis.
Ruralidades – E estes vasos de plásticos – para que servem?
António Martins – São precisamente os plásticos que utilizamos na vindima. São depois transportados no tractor ou na carrinha e vêm directamente para aqui para serem deitados os cachos na máquina que vai esmagar a uva.
Ruralidades – E que tipos de pipas tem?
António Martins – Olhe, a mais recente que adquiri é de plástico e leva 150 litros.
Ruralidades – Plástico?! Parece de cortiça!
António Martins – Sim, mas tem um produto por dentro que a isola para conservar o vinho. As pipas não devem ficar com o vinho durante muito tempo para que possam descansar e voltar novamente a encher no ano seguinte. É por isso que tiramos o vinho para os inoxes ou para estas pipas de plástico. Só as descobri o ano passado, são muito mais baratas e o vinho fica a saber bem. Dizem que o vinho nos inoxes fica com um sabor esquisito, que sabe um pouco a azedo… não sei. Talvez. Dai a opção pela pipa de plástico.
Ruralidades – E as outras pipas? São de que tipo de madeira?
António Martins – Olhe, tenho aqui madeira de castanheiro, que é da melhor madeira que há para tonéis e tenho também alguma de eucalipto, que não é tão boa. A do meio é em mogno, que também é muito boa para o vinho, mas o castanheiro é o melhor.
Ruralidades – E essas pequenas tampas – o que são?
António Martins – Chamam-se postigos. Têm uma tranca que se aperta deixando o interior da pipa em vácuo, para que o vinho não crie acidez.
António Martins – Já o tonel de plástico não tem postigo. Apenas uma abertura por cima que é fechada com uma tampa de plástico. As pipas devem ser molhadas antes da vindima para que inchem e possam vedar completamente. Põem-se uns paninhos com água por cima, ou mesmo com a mangueira.
Ruralidades – O que tem ai é um funil?
António Martins – Sim já foi o meu pai que o fez. É todo em cortiça, são tiras em cortiça adaptadas a um formato de funil. Este foi o funil que sempre utilizei, mas como gosto tanto dele e já o considero uma peça de museu, deixei-o aqui ficar como recordação e comecei a utilizar um outro de inox.
Ruralidades – Como é que sabe que o vinho tem ácido?
António Martins – É fácil – acendemos uma chama num pedaço de enxofre e pomo-la dentro do tonel. Se a chama se apagar, significa que o vinho está com ácido.
Ruralidades – E se tiver ácido?
António Martins – Com um fole, temos que tirar o ácido da pipa. A seguir chegamos-lhe outra vez a mexa de enxofre a arder. Se ficar acesa…. Está tudo bem.
Ruralidades – Enxofre? Porquê?
António Martins – O enxofre não faz mal a ninguém, é um desinfectante. Antes da vindima, queimo uma quantidade de enxofre dentro da própria adega, para a desinfectar. O vinho quando está a ferver, a fermentar, vai buscar todos os odores, nunca deve estar próximo de nada, nem de fruta – o vinho apanha todos os sabores, pelo que temos que ter um cuidado redobrado com a fermentação. O vinho apanha todos os sabores que estão por perto, razão pela qual a adega deve ser sempre bastante ventilada.
Ruralidades – Muito obrigada. Acho que todos aprendemos hoje que fazer vinho não é assim tão difícil como à partida poderíamos imaginar!


























































