Entrevistas    Fruteiras

 

O trabalho no pomar

 

 

 

 
 
António Martins

 

António Martins

Colaborador Habitual do Ruralidades

 

 

Ruralidades – Como estamos de maças este ano, Sr. António Martins?

António Martins – Não muito bem. As macieiras queimaram-se logo no início do ano com o gelo.

 

 

 

Ruralidades – São tratadas?

António Martins - Sim, são todas curadas. Assim que se podam levam logo a primeira cura.

Ruralidades – Quando é feita a poda?

António Martins – Quando começam a rebentar, lá para Março, Abril. Depois vão-se curando ao longo do ano, consoante aquilo que é necessário, um insecticida, um herbicida, fungicida, aracnídeo...

Ruralidades – Mas quais as pragas que mais as atacam?

António Martins – Os fungos atacam muito e os ácaros também.

Ruralidades – E aduba o pomar?

António Martins – Sim, há sempre uma primeira adubação de inverno em Janeiro, na altura das chuvas. É a adubação principal. Depois normalmente levam outra, mas os terrenos devem ser analisados para sabermos de que tipo são. Se se tratar, por exemplo, de um terreno ácido, não vamos pôr um adubo com um elevado grau de acidez. Não faz sentido. Temos que equilibrar o terreno com um adubo cujo grau de acidez seja praticamente nulo.

Ruralidades – E vende maças ou são apenas para consumo familiar?

 

 

 

António Martins – Em tempos fui um grande produtor de maça, tinha cerca de 90 macieiras. Vendia as maças para uma fruteira aqui próxima, mas apenas me trouxe prejuízo. Nessa fruteira classificavam a fruta com medidas irregulares, diziam que a maça era muito pequena, o refugo ficava para eles, pagavam apenas uma despesa ou outra num valor muito baixo e somente no ano seguinte. Havia ali uma fraude muito grande. Talvez por isso já tenha encerrado as portas. Nessa altura, dei-me ao trabalho de fazer um levantamento dos pés da macieira pelo concelho de Oleiros e cheguei à conclusãoque tínhamos aqui cerca de 40.000 macieiras.

Ruralidades – E aquela macieira pequena que ali está?

António Martins – Neste pomar tenho várias qualidades de macieiras, mas essa veio de França e já deu fruto este ano. É uma maça muito verde e saborosa que se aguenta muito tempo.

 

2504g
 

 

Ruralidades – E a poda? É anual?

António Martins – Sim, e é feita consoante a copa que pretendemos. Se queremos uma copa muito baixa temos vantagem na altura da apanha: o valor a pagar aos trabalhadores é mais baixo, não são necessárias escadas, mas depois tenho um problema: não consigo passar com o tractor por baixo delas. Então, prefiro que as copas fiquem um pouco mais altas, de forma a permitir que o tractor passe. Se na altura da apanha for necessário utilizar uma escada e pagar um pouco mais de mão-de-obra, assim será. Senão como é que trato das macieiras com uma copa baixa? Repare: eu tenho de andar à volta das macieiras para as tratar, para poder cavar ou pôr herbicida, embora não goste muito de pôr herbicida por baixo das macieiras. Acho que sofrem muito com ele, mas o que ainda vou utilizando (muito raramente) é o de contacto.

 

 

 

Ruralidades – Que tipo de herbicidas existem?

António Martins – O de contacto e o sistémico.

Ruralidades – Qual a diferença entre eles?

António Martins – O herbicida sistémico actua através da raiz e fica na terra. O de contacto apenas actua onde cai – onde cai é onde queima a erva.

Ruralidades – Bem, e chegámos agora às pereiras….

 

 

 

Icone video
 

 

António Martins – Sim, e estas peras são muito boas, são pêra rocha. As peras são um fruto que não resiste muito tempo. Apodrecem rapidamente.

Ruralidades – É fácil conseguir mão-de-obra para podar as fruteiras?

António Martins – Sim, e eu também sei podar. Tirei um curso. Mas geralmente tenho um ajudante que anda aqui um dia ou dois. Cada macieira e cada pereira têm a sua poda, a maneira como queremos que a copa se forme, tudo isso.

Ruralidades – Qual a técnica utilizada para a poda?

António Martins – Devem ser cortadas as pontas dos ramos pela parte superior dos rebentos, tendo em vista o alargamento da copa. O corte é feito pela parte superior e exterior do rebento. Devem ser cortados todos os rebentos interiores que não produzem fruto que são os chamados bravos ou mamões. O objectivo é deixar o sol entrar dentro da árvore. Se se optar por uma poda baixa é necessário fazê-la logo de início para que a árvore não cresça muito em altura. A planta, já com três ou quatro pernadas formadas com cerca de 1 metro de altura deve ver a mestra (guia) cortada para que a copa possa alargar não permitindo que a árvore cresça mais em altura. As restantes pernadas devem também ser cortadas tendo em consideração o próprio crescimento da árvore e o alargamento da copa. Para que a copa fique alta deve ser cortado o tronco guia à altura que se desejar, podando-se todas as outras pernadas, mas tendo em consideração o crescimento da planta e o próprio alargamento da copa.

Ruralidades – E os custos?

António Martins - Hoje em dia não fica barato. A mão-de-obra de um podador já vai em cerca de 45 Euros o dia.

Ruralidades – E as fitas reflectoras que estão penduradas nas fruteiras. Servem para quê?

 

 

 

Icone video
 

 

António Martins – As fitas apenas estão nas cerejeiras. Quando as cerejeiras tinham muita fruta, a passarada dava cabo de tudo. As cerejas eram muito doces. Mas nem é o que elas comem – é o que estragam e deitam para o chão. Com estas fitas o resultado é engraçado – vêm até às fruteiras e ao encontrarem o seu reflexo vão-se embora.

Ruralidades – E a rega? Qual o sistema que implementou?

António Martins – É um sistema de rega gota a gota. Rego uma vez por dia na altura mais fresca, para que a água fique toda na terra e não evapore. Tenho um depósito de 1.000 litros. Assim que é despejado, volta a encher para o dia seguinte. Fica a regar cerca de hora e meia.

 

 

 

Ruralidades – Obrigada!

 

?>