Entrevistas    Horta

 

A Horta do Senhor Inspector

 

 

 

 
 
António Monteiros

 

O nosso entrevistado, António Monteiro Inácio, nasceu em 1954 e é inspector da Policia Judiciária. Na sua juventude ajudou os avós na lavoura e há cerca de um ano pediu a um vizinho que lhe cedesse parte de um terreno rodeado de prédios para produzir hortaliças para consumo familiar. O Senhor António Inácio nasceu em Resende e reside no Olival Basto, às portas de Lisboa. Quando lhe perguntámos se não preferia passar a tarde com os amigos no café respondeu: “Não, isto é muito melhor!”

 

 

Ruralidades – É engraçada a “servidão” que conseguiu improvisar para aceder a este terreno cercado de prédios. O terreno é seu?

 

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António Inácio – Não, é de um vizinho que reside num dos andares que aqui estão à volta. Para aqui chegar tive que criar um atalho…

Ruralidades – Explora-o a título gratuito?

António Inácio - Sim. Eu e o meu vizinho podemos apanhar os produtos que quisermos. Mas na verdade há outras pessoas que também aqui vêm à horta. Há para todos.

Ruralidades – Então, e o que é que tem aqui que nos possa mostrar?

 

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Ruralidades – Tem aqui cebolo. Já foi transplantado?

 

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António Inácio - Sim, e também já tenho alguma cebola em crescimento….

 

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Ruralidades – É um tomateiro?

 

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António Inácio - Sim, os tomates ainda estão verdes, estão aí por baixo.

 

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Ruralidades – Porque resolveu fazer aqui esta horta cercada de prédios e na companhia de uma oficina?

 

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António Inácio – Foi para me entreter, um passatempo.

Ruralidades – Trabalha? Qual a sua profissão?

António Inácio - Inspector da Policia Judiciária.

Ruralidades – Equipa, está na hora de irmos embora! (risos)…. Estou aqui a ver um sistema de rega…. Foi o senhor que o construiu?

 

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António Inácio - Sim. Posso pôr a funcionar para verem. Aprendi sozinho, lendo uns livros e consultando uns sites….

 

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Ruralidades – Há quanto tempo trabalha nesta horta?

António Inácio - Há um ano.

Ruralidades – O que aqui produz é suficiente para consumo familiar ou tem que ir ao supermercado comprar produtos frescos?

António Inácio - Compra-se sempre mais alguma coisa… mas no que respeita ao consumo de hortaliças não compro nada. Por agora tenho isto que referi, mas também já tenho tido couves, couve portuguesa (já não tenho nenhuma agora) e galega para caldo-verde. O feijão verde e o tomate dão perfeitamente para o consumo da casa e para os vizinhos.

 

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Já as curgetes e as abóboras têm sido de pouca utilidade – foram mais uma brincadeira, são muito grandes.

 

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Ruralidades – Pouca utilidade? São óptimas para sopa e para fazer doce….

António Inácio - Ah, sim, mas são de uma qualidade muito grande, 50 a 70Kg…. Está a ver o que é uma abóbora dessas? Tem que ser para dar.

Ruralidades – Sempre pode congelar para utilizar durante o ano….

António Inácio - Já fiz isso, mas prefiro dar.

Ruralidades – E água? Gasta muita?

António Inácio - Não, pouca água. Rego 3 vezes por semana – às segundas, quartas e sextas-feiras.

Ruralidades – De manhã ou ao entardecer?

António Inácio - Ao final do dia, por volta das 21h, 22h. Também já instalei um sistema de rega automática.

Ruralidades – Já alguma vez se tinha dedicado à horticultura?

António Inácio - Não, foi só agora.

Ruralidades – E porquê? Porque não outra actividade qualquer?

António Inácio - Porque sou da província, de Resende, entre Lamego e Porto e na minha juventude ajudava os meus avós. Está-me no sangue.

Ruralidades – Estou também aqui a ver o que parece ser maracujá…. Onde está a flor?

 

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António Inácio - A flor está ali, mas ainda está fechada. Fiz aqui este caramanchão para que o maracujá pudesse trepar, mas ainda só deu dois ou três frutos.

 

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Ruralidades – Este terreno contém alguns resíduos, pedras…. A terra é boa para o plantio?

 

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António Inácio - Sim, é boa. Basta um pouco de estrume e de adubo. É muito boa. Aliás, praticamente não tenho adubado, apenas guardo um pouco de adubo orgânico, não tem qualquer composição….

 

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Ruralidades – Mas vejo por aqui tanto entulho…..

 

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António Inácio - Não, repare bem: o entulho concentra-se apenas nesta zona do meio. O lixo foi todo puxado para o meio do terreno por um outro vizinho que explorou o terreno antes de mim. De maneira que a terra até já estava mais ou menos preparada. É um terreno muito barrento, é rijo, mas bom para cultivo. Estas zonas mais elevadas que vê no terreno são restos das abóboras e outras sobras – faço umas valas, deito os restos da produção, tapo-as e tenho estrume para utilizar no ano seguinte.

Ruralidades – E estas alfaces? Já foram transplantadas?

 

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António Inácio - Sim, estão agora em crescimento.

Ruralidades – Não deviam estar mais afastadas umas das outras?

António Inácio - Sim, mas não tinha sítio onde as pôr. De qualquer forma, também produzem bem assim. São de duas qualidades: alface roxa e alface de folha. Nesta última vão-se cortando as folhas em volta à medida que vai crescendo. Também deixei espigar uma série delas para colher as sementes e para os pássaros terem o que comer.

 

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Ruralidades – E que flor é esta?

António Inácio - É a flor da alface espigada de onde se retiram sementes. São sementes de cor negra.

 

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Ruralidades – Os pássaros comem muito do que produz?

António Inácio - Não, não comem nada, estragam mais os gatos que esgravatam a terra.

Ruralidades – E estas pequenas canas que aqui estão enterradas no chão… para que servem?

 

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António Inácio - É onde estão semeados os coentros. As canas servem para que os gatos não esgravatem o terreno. Picam-se e fogem. É como este ramo que está em cima do cebolo. Evita que os gatos estraguem a cultura.

 

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Ruralidades – E aquilo? O que é? De forma redonda, parece uma flor…

 

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António Inácio - (Risos). É a flor do alho francês. Está ali para dar semente. Cada flor tem muitas campânulas brancas e dentro das campânulas estão umas quatro ou seis sementes pretas. Quando amadurecem as flores, ou seja, quando morrem, sacudimo-las, esfarelamo-las para que as sementes caiam para cima de um papel ou de um pano. Com o sol secam e semeiam-se novos alhos. Se cada semente germinar, nasce um alho francês.

 

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Ruralidades – A cebola espiga da mesma forma que o alho francês. … é curioso. Mas a cebola continua a ser comestível. E o alho?

António Inácio - O alho já não pode ser utilizado na culinária porque fica muito rijo. Do alho francês aproveita-se pouco, apenas a parte branca. Cheira bem, o alho… As flores são boas para a polinização.

 

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Ruralidades – As curgetes que aqui tem já estão muito grandes. Como é que sabe que está na altura de as apanhar? A folhagem não está seca…

 

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António Inácio - A curgete apanha-se pelo tamanho. Não tem a ver com a secagem da rama.

 

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E nem deve crescer muito, porque enquanto é pequena pouca pevide tem. Se se deixa crescer em demasia fica pobre, não fica macia, tenra. E então quando a rama da curgete seca de vez, já esta não presta de todo.

Ruralidades – Também estou a ver beterraba…

António Inácio - Sim, a beterraba quando é apanhada, tem que ser muito bem lavada e a pele raspada com uma faca. Caso contrário, fica a saber a terra. Um pouco de vinagre ajuda…

 

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Ruralidades – Isto sei que é feijão verde porque o vejo a trepar pelas canas….

 

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António Inácio - Sim, mas também há feijão verde rasteiro, não precisa de canas.

Ruralidades – Para o feijão verde que trepa, as canas são essenciais porquê?

António Inácio - Porque a planta começa a produzir de baixo para cima, tem que ser sempre pendurada; se ficar no chão acaba por se embrulhar toda e estraga-se.

 

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Ruralidades – Comprou as canas para o feijão verde?

António Inácio - Não fui apanhá-las aí, por vários sítios.

Ruralidades – E pragas? Há por aqui?

António Inácio - Tenho algumas que são atacadas com uma solução composta por 50% de água e 50% de leite estragado. Faço a mistura e pulverizo tudo.

 

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Ruralidades – Tem alguma máquina própria para pulverizar?

António Inácio - Não, é um pulverizador de bomba.

Ruralidades – E que bichos consegue atacar com essa mistura?

António Inácio - Piolho, mosquito….

Ruralidades – E o escaravelho da batata? Pulula também por aqui?

António Inácio - Sim, mas esse não morre com esta mistura e acaba por comer a rama da batata.

Ruralidades – E comendo a rama o que é que acontece à batata?

António Inácio - Morre. (risos)

Ruralidades – Então tem aqui uma verdadeira agricultura biológica!

 

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António Inácio - Sim, podemos dizer que sim.

Ruralidades – E árvores? Tem algumas?

António Inácio - Sim, uma nespereira, umas ameixoeiras bravias que ainda não deram nada, um abrunheiro, uma figueira que é ali do vizinho...

 

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Ruralidades – E os melões e meloas? Não produziram porquê?

 

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António Inácio - Este ano pus alguns só para experimentar, mas um bicho qualquer, uma bactéria deu-lhe na raiz e acabaram por morrer. Estão ali uns pequenitos que não vão sobreviver porque a planta está a morrer. O melão requer uma terra própria, bastante estrume e eu não lho dei. Têm que ser feitas umas covas fundas, de meio metro e muito estrume…

Ruralidades – E a salsa? Onde está?

António Inácio - Junto à sombra das abóboras.

 

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Ruralidades – Aposta em ervas aromáticas?

António Inácio - Vou pôr mais, mas agora como vou de férias não vale a pena. Tenho apenas salsa, coentros e hortelã.

 

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Ruralidades – Tem algum plano de rotatividade e pousio do terreno?

António Inácio - Sim. Agora aqui tenho tomateiro, para o ano serão as couves a virem para esta parcela… sei de memória onde planto as coisas e vou alternando. Se não for assim, as bactérias tornam-se muito resistentes e acabam por atacar a produção.

Ruralidades – O que é que está entre as alfaces?

 

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António Inácio - Ah, isso é uma beldroega. É boa para a sopa, para saladas. É uma erva.

Ruralidades – E tem coentros em flor também… está à espera que sequem para recolher a semente?

 

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António Inácio - Sim. Estou a espera que a flor morra para retirar e secar as sementes.

 

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Também tenho aqui rúcula selvagem… boa para salada….

 

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E malagueta…

 

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Ruralidades – E o que é este vegetal?

António Inácio - É uma couve que se chama acelga. Está espigada. Estou também à espera para aproveitar a semente.

 

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Ruralidades – Como mantém a horta durante o período de férias?

António Inácio - Com o meu equipamento de rega digital devidamente programado.

Ruralidades – Tem algum custo?

António Inácio - Nenhum.

Ruralidades – E que água utiliza para a rega?

António Inácio - É a água do poço. Está aqui tapado com estes plásticos.

 

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Pertence ao terreno. Tem uma profundidade de 11 metros, mas por norma só tem dois de água. Mas dá perfeitamente.

Ruralidades – E com a chuva toda que caiu este ano (2010)? O nível da água não subiu?

António Inácio - O poço encheu um pouco mais, mas há aqui um prédio em construção que afundou muito as caves e acabaram por cortar um pouco da água aqui do poço. Mas dá perfeitamente.

Ruralidades – Muito obrigada pela sua colaboração. É fácil de depreender que prefere despender aqui algum tempo com a enxada na mão do que a realizar outra actividade qualquer.

António Inácio - Nenhum.Sim, estou aqui uma ou duas horas por dia, aos fins-de-semana um pouco mais. Sempre é melhor que ir para o café!

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